Para o relógio. E olha para trás.
Hoje decidi parar o relógio. Olhar um pouco para trás e refletir sobre o futuro. Quando olhei para trás e vi uma menina, cabelos longos e encaracolados loiros. Pensei onde essa menina tinha ficado perdida.
Nunca tinha visto tanta felicidade compactada num ser tão pequeno e franzido. Invejei-a. Uma inveja branca, quase pura, de ser como ela. Aquele sorriso de orelha a orelha, que de certo modo era contagiante para os meus olhos, que brilharam a olhar para ela. Os olhos verdes cor de primavera a florir. As sapatilhas rotas de correr atrás da bola. Corria como se fosse o seu momento triunfal na vida, como se corresse atrás de uma sensação melhor. Aquela sensação de ser um pouco mais livre. Apreciar todos os pormenores da vida, desde a dor do arranhão no joelho, até ao primeiro beijinho. Como é bom ser ingenuamente humilde, acreditar que vai ser sempre assim e que no fundo todos temos um lado bom.
A sua ingenuidade deixou-me rendida aos seus pés. Talvez o mundo seja mais bonito num olhar ingénuo. Talvez seja esse o problema dos crescidos, perderem a ingenuidade do olhar enquanto crescem. As flores passam a ser meras flores, e correr já cansa nas pernas. A criança mais inteligente é aquela que diz não querer crescer. "Quando crescer quero ser pequenina de novo".
E quem me dera voltar a ser pequenina de novo. Uma ingénua menina que passeava sem olhar para os lados, que apenas sorria a tudo e a todos e não guardava mais sentimentos, tudo passaria um dia. Hoje o tempo não para, nem abranda um pouco para respirar. Não dá para olhar as flores, nem as arvores da larga avenida. Não dá para esperar o lado bom das pessoas, já se vai de pé atrás para nem sequer se perder tempo. Já se tem o coração dorido de mais para acreditar que amanhã será melhor. Não há tempo para sonhar e querer ser alguém novo amanhã.
Aquele sorriso que outrora foi inesquecível,
dissipou-se num relógio acelerado.
E será que essa menina teria orgulho da crescida que sou hoje?
- Ariana

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