Permitir o olhar.

Hoje sentei-me a observar o ser humano. O ser nada e o ser tudo. O ser que se queixa por tudo e por nada. O ser que tem tudo mas diz que não tem nada. O ser que manda em tudo, mas deixa-se perder por nada. O ser que escreve por tudo e por nada, e sente tudo mas prefere dizer que não sente nada.

Frio.
Está frio e continuo aqui, no meio da larga avenida que me assusta. Sinto-me a observar e a ser observada. Avalio cada pormenor. A maior qualidade de um observador é reparar em pormenores que mais ninguém se vai lembrar que existem.

Calma.
Talvez o maior défice das pessoas. Ouvem-se buzinas, insultos, estrondos, gritos. Vêm-se movimentos velozes e furiosos de quem tem pressa mas que nem sabe para onde vai. Correm para o trabalho, para casa, para os braços do marido ou do amante.

Perdem-se.
Perdem-se no tempo entre montras e avenidas. Pedem um café e leem o jornal, nem apreciam o café nem percebem nada do raio do jornal. Quem critica os homens por só fazer uma coisa de cada vez, devia saber que isso é uma qualidade e jamais será um defeito (mas é preciso fazer alguma coisa em condições).

Laços.
Laços afetivos e de meninas por todos os lados e mais alguns. A menina passa com um avô e lá vão dois laços, um na cabeça da menina e outro nas mãos dos dois, que entrelaçam como se ambos fossem um só. Passa um casal de jovens, ainda se sente a chama a quilómetros, os laços nas mãos, nos beijos e no presente que ele guarda no bolso. Passa uma senhora sozinha, deve ter mais do triplo da minha idade mas vem tão despida (mesmo com aquele casaco grosso cheio de pelo), vem vazia de si, com o seu laço na mão, na blusa e no peito. Carrega-o sozinha mas ele está lá, e a aliança também, promessas são promessas e os melhores laços sobrevivem aos votos de casamento.

Almas.
Almas vazias e despidas de si. Almas tristes e desoladas. Aquela senhora carrega o preto na roupa e o luto no peito. A menina carrega um coração partido e uma lágrima no canto do olho. O rapaz carrega a derrota de um jogo de final de campeonato e um desapontamento pessoal. Aquele senhor de cabelo grisalho carrega a saudade e vivacidade que vai deixando para trás.

Quotidiano. 
Aquele que nos faz sorrir mesmo sem sentir. Aquele que nos faz viver mesmo a morrer. Aquele que nos faz caminhar numa larga avenida mesmo sem destino.

Tempo.
Aquele que passa por mim e eu não o vejo.
Que ganho mesmo quando o perco aqui sentada.
Aquele que termina sem se despedir. - Ariana  






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