Saudades de a ter.

És tela.

Em mim és uma tela cor da tua pele branca com trança caída sobre as tuas costas, olhos azuis no centro de tudo. Entre linhas e traços, soltos, vincados vou pintando o que ouço dizer, o pouco que me lembro e tudo aquilo que quero ver. Vou fazendo mil e um retratos e acabo por perceber que és o conjunto de todos, num só. Acabo por perceber que és uma fruto da minha imaginação e que jamais serei capaz de te recriar numa só tela. Ouço histórias e vou criando memórias do que nunca vivi. Sinto-te e vejo-te onde te quero ver, naquelas escadas, naquela janela, à varanda. Esperas por mim, por ele, por todos e eu sei que estás nessa varanda à espera para me conhecer.
Dizem que é impossível ter saudades do que nunca conhecemos, do que nunca nos pertenceu, no que não nos lembramos, dizem as pessoas que nunca ouviram falar de ti. Pessoas que sabem lá o que é ser pessoa. Porque eu tenho saudades mesmo sem sentir mais o teu toque e mesmo que não me lembre os dias em que te toquei. Dizem-me que te pinto com traços tão teus e que eu sou uma tela de vidro, de espelho, reflexo meu cheio de recordações, de traços, de ti.
E hoje já não és tu  que está na varanda desta casa, já não és tu que te debruças sobre o parapeito, já não és tu que esperas que um outro ser volte para os teus braços. Sou eu. Eu que me debruço sobre a varanda, que fixo o inicio da rua e te espero.

Espero que voltes para me abraçar a alma,
porque pode ser impossível pintar o som das minhas lágrimas,
mas será ainda mais impossível pintar as saudades de nunca te ter tido.
Avó. - Ariana.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Mais pessoas no mundo que amem pessoas.

Desafio-nos.

OBRIGADA 2017 ❤