Sol de inverno à beira-mar.

8/365, Beira-mar.

As ondas rebentavam levemente nos meus pés, brancos como a cal, frios e consumidos pelo inverno gelado de Janeiro. A minha mente era levada em cada onda, e ninguém sabe a capacidade que uma onda tem de levar o que não cabe mais dentro de nós. Falar sem abrir a boca. Abraçar o vazio que traz tudo aquilo que cabe e transborda por todos os lados. Dei por mim a pensar no nada e no tudo, tudo o que faz bem e tudo o que faz mal. Há coisas que só nos enchem no dia-a-dia, porque não há mar que nos limpe por dentro. Deixei-me ir, flutuando por entre as
ondas que por vezes erguiam-me demais, assustavam, mas ao mesmo tempo me transmitiam uma plenitude e uma calma que ainda hoje sinto sobre os meus ombros.
Cada reflexo era um ponto de esperança, em cada ponto de luz uma porta aberta para novos caminhos. Desabafei segredos ao ar e deixei-os ir com o vento. Contei histórias pesadas, que carrego no meu colo e cansa. Cansa mais do que aquilo que devia. Deixo-me ir, deixo ir tudo o que pesa aqui. Por vezes, a bagagem pesa demais, é preciso ser livre, deixo aqui, enterrado na areia as mágoas que carregava, hoje não mais. Podes levar, mar! Pode seguir o caminho que eu preciso de ir mais leve.
Sou um mero mar, por vezes sereno, outras vezes bravo, por vezes em marés baixas, outras vezes em marés altas. Quem sou eu mais que ele? Quem é ele mais que eu? Somos uma plenitude conjunta. Deixo-me consumir e deixo o sangue para ser consumido por água salgada, quem nunca se deixou salgar não sabe o que é ser livre. Se isto não for nada, não quero ser nada mais que nada, mero nada. Quero ter a capacidade de estar sozinha, no meio da multidão, sem nunca deixar de derrotar a solidão, preciso de me escutar, talvez eu tenha passado demasiado tempo sem escutar, sem me escutar. Falo-me, a mim própria.
A água salga-me os ossos congelados de inverno e que em todos os invernos existam primaveras, como em todas as marés baixas existam altas. Porque foi com a tempestade que aprendi a dar valor a um simples fim de tarde de inverno à beira-mar.

E quantas solidões cabem numa praia? - Ariana.

  
                     
   
(fotografias reais)

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