Nada mais que Pessoa.
Já o meu caro Fernando Pessoa, na sombra de uma pessoa que para mim existe sem qualquer ponta de dúvida, dizia:
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto"
Eu era feliz e ninguém estava morto"
Quando li pela pela primeira vez invejei-o por nunca ter tido a oportunidade de ser eu a escreve-lo, porque era tão eu, tão meu. Era como se a adulta que hoje vive não visse mais a sombra onde mora a minha criança. E como a infância dele modificou, a minha também e todas elas mudam em qualquer que seja a vertente. Deixamos de ser a sombra de sonho de adulto, para sermos na sombra a criança inocente perdida. Invertemos os papeis e muitas vezes com os pés pelas mãos fica tudo do avesso. Passamos a substituir pessoas por outras no dia dos nossos aniversários, ou não os festejamos porque vai faltando demasiada gente: os amigos já não são muitos, os avós já não ocupam a cabeceira da mesa e outros tantos partiram para as suas viagens.
Por vezes preciso de parar para me lembrar de tudo o que fui, como se em mim habitasse um constante medo de me esquecer do mais ínfimo pormenor de quem fui, de quem tive e de quem foi. Lembrar todos os aniversários e todas as mesas cheias de pessoas, o cheirinho às sobremesas da avó, as conversas sábias com o avô e toda a criança que existia em mim. Preciso que a minha criança continue na sombra para nunca me esquecer de onde vim. Há tantos sorrisos que marcam as pessoas, pessoas que fizeram tudo aquilo que somos, porque em cada pormenor meu está alguém que passou na minha vida, independemente do tempo, do espaço, do sangue e da lição que trouxe. Não há sentido mais bonito na vida do que ajudar a construir o sentido de alguém, mesmo que isso traga despedidas, lágrimas e saudade.
Que toda a saudade do mundo venha, se nunca me permitir esquecer os pormenores.
E hoje não sou mais nem menos do que Pessoa.
Com saudade, criança minha. - Ariana.
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